terça-feira, 24 de maio de 2011

Bolero de Ravel

Bolero de Ravel – Menalton Braff

O livro de Menalton Braff tem uma narrativa surpreendente e por vezes complicada aos leitores desatentos.
Bolero de Ravel é uma história contada por Adriano, um homem de 35 anos que ainda vive e se comporta como adolescente, apresentando sinais de insanidade em suas interpretações da realidade e na relação de amor e ódio que mantém com a irmã Laura, advogada bem sucedida que ao seguir os passos do pai vê no irmão mais velho uma pessoa infeliz e inútil.
Adriano se vê sozinho após a morte dos pais em um acidente, o que o faz ficar trancado na escuridão da casa recém desabitada da família, misturando em sua mente o passado e o presente, invenção e realidade.
A mãe, protetora do filho frente à tirania do pai, apresentou-lhe o prazer da música, tocando ao piano e presenteando o filho com o disco Bolero de Maurice Ravel. Para Adriano a única coisa que o ligava à realidade era o Bolero, que muitas vezes acabava antes de seus pensamentos.
As mãos peludas do pai criaram a imagem de “aranhas” habilidosas em Adriano que, ao decidir abandonar os estudos, optou por ser ninguém perante o pai, que sempre viu o filho como invejoso frente às conquistas da irmã.
Após o choque da morte dos pais, Laura dispensa a empregada da casa e deixa o irmão sobrevivendo dos restos da geladeira e de alguns trocados que pegou da gaveta da mãe. Sem tempo disponível para dar atenção aos devaneios de Adriano, Laura decide vender a casa da família e encontra grande resistência por parte do irmão solitário.
Junto aos dramas familiares, Adriano narra sua primeira experiência sexual com Marcela; a distância que se fez entre ele e seu melhor amigo Durval, com quem passava horas caminhando e discutindo filosoficamente as coisas da vida, além da visão de um cão amarelo que brinca com as gotas do mar e da visita que fez à um velório de criança, acontecimentos que não se pode identificar como verdadeiros no mundo ou em sua mente.

Resenha de Rafael Freitas.

A leitura vale a pena!

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Inútil

Hoje acordei para me sentir inútil.
Mais inútil do que aquelas socialites
Que fazem panetones e ovos de páscoa
E distribuem entre os funcionários do marido.
Toda essa inutilidade tem um motivo real:
Por que perder tanto tempo
Com tanta coisa sem sentido?
Malditos burocratas com óculos de muitos graus
E dezenas de pós-graduações!
Sejam sempre úteis
Para que a máquina da mentira e da hipocrisia
Nunca pare de rodar.


                                                                                 Rafael Freitas


sexta-feira, 1 de abril de 2011

Tardes de domingo

Domingo.
O dia mais desprezível da semana.
Não por ser o primeiro dia
Nem por ser véspera de segunda-feira.
O silêncio nas (das) ruas também é bom.
Feira livre, passeio com a família.
Mas e aqueles programinhas de TV!
Uns filhos da puta
Exploram a desgraça humana
E lucram muito com isso.
Meu vizinho liga seu televisor no volume máximo.
Destrói meu começo de semana.
Crianças gritando músicas desesperadamente
E o auditório aplaudindo.
Homens e mulheres se humilhando em provas ridículas
Por conta de uns trocados
E o auditório aplaudindo.
Filhos querendo provar quem tem o melhor pai
E o galinheiro aplaudindo.
Só estão a salvo
A Inezita e o Rolando.
Gostaria que todos esses aproveitadores
Empresários do fracasso
Fossem apresentar programas no inferno.
Certamente o capeta
Que adora a desgraça
Desligaria a televisão.
Não posso mata-los
Tenho mulher e filhos.
Dou um tiro na tela
E alivio minha sede se sangue
E de tardes de domingo silenciosas.

                                                                                        Rafael Freitas


quinta-feira, 3 de março de 2011

Big Brother Brasil, um Programa Imbecil

Curtir o Pedro Bial
E sentir tanta alegria
É sinal de que você
O mau-gosto aprecia
Dá valor ao que é banal
É preguiçoso mental
E adora baixaria.


Há muito tempo não vejo
Um programa tão ‘fuleiro’
Produzido pela Globo
Visando Ibope e dinheiro
Que além de alienar
Vai por certo atrofiar
A mente do brasileiro.


Me refiro ao brasileiro
Que está em formação
E precisa evoluir
Através da Educação
Mas se torna um refém
Iletrado, ‘zé-ninguém’
Um escravo da ilusão.


Em frente à televisão
Lá está toda a família
Longe da realidade
Onde a bobagem fervilha
Não sabendo essa gente
Desprovida e inocente
Desta enorme ‘armadilha’.




Cuidado, Pedro Bial
Chega de esculhambação
Respeite o trabalhador
Dessa sofrida Nação
Deixe de chamar de heróis
Essas girls e esses boys
Que têm cara de bundão.


O seu pai e a sua mãe,
Querido Pedro Bial,
São verdadeiros heróis
E merecem nosso aval
Pois tiveram que lutar
Pra manter e te educar
Com esforço especial.


Muitos já se sentem mal
Com seu discurso vazio.
Pessoas inteligentes
Se enchem de calafrio
Porque quando você fala
A sua palavra é bala
A ferir o nosso brio.


Um país como Brasil
Carente de educação
Precisa de gente grande
Para dar boa lição
Mas você na rede Globo
Faz esse papel de bobo
Enganando a Nação.


Respeite, Pedro Bienal
Nosso povo brasileiro
Que acorda de madrugada
E trabalha o dia inteiro
Dar muito duro, anda rouco
Paga impostos, ganha pouco:
Povo HERÓI, povo guerreiro.


Enquanto a sociedade
Neste momento atual
Se preocupa com a crise
Econômica e social
Você precisa entender
Que queremos aprender
Algo sério – não banal.


Esse programa da Globo
Vem nos mostrar sem engano
Que tudo que ali ocorre
Parece um zoológico humano
Onde impera a esperteza
A malandragem, a baixeza:
Um cenário sub-humano.


A moral e a inteligência
Não são mais valorizadas.
Os “heróis” protagonizam
Um mundo de palhaçadas
Sem critério e sem ética
Em que vaidade e estética
São muito mais que louvadas.


Não se vê força poética
Nem projeto educativo.
Um mar de vulgaridade
Já tornou-se imperativo.
O que se vê realmente
É um programa deprimente
Sem nenhum objetivo.


Talvez haja objetivo
“professor”, Pedro Bial
O que vocês tão querendo
É injetar o banal
Deseducando o Brasil
Nesse Big Brother vil
De lavagem cerebral.


Isso é um desserviço
Mal exemplo à juventude
Que precisa de esperança
Educação e atitude
Porém a mediocridade
Unida à banalidade
Faz com que ninguém estude.


É grande o constrangimento
De pessoas confinadas
Num espaço luxuoso
Curtindo todas baladas:
Corpos “belos” na piscina
A gastar adrenalina:
Nesse mar de palhaçadas.


Se a intenção da Globo
É de nos “emburrecer”
Deixando o povo demente
Refém do seu poder:
Pois saiba que a exceção
(Amantes da educação)
Vai contestar a valer.


A você, Pedro Bial
Um mercador da ilusão
Junto a poderosa Globo
Que conduz nossa Nação
Eu lhe peço esse favor:
Reflita no seu labor
E escute seu coração.


E vocês caros irmãos
Que estão nessa cegueira
Não façam mais ligações
Apoiando essa besteira.
Não dêem sua grana à Globo
Isso é papel de bobo:
Fujam dessa baboseira.


E quando chegar ao fim
Desse Big Brother vil
Que em nada contribui
Para o povo varonil
Ninguém vai sentir saudade:
Quem lucra é a sociedade
Do nosso querido Brasil.


E saiba, caro leitor
Que nós somos os culpados
Porque sai do nosso bolso
Esses milhões desejados
Que são ligações diárias
Bastante desnecessárias
Pra esses desocupados.


A loja do BBB
Vendendo só porcaria
Enganando muita gente
Que logo se contagia
Com tanta futilidade
Um mar de vulgaridade
Que nunca terá valia.


Chega de vulgaridade
E apelo sexual.
Não somos só futebol,
baixaria e carnaval.
Queremos Educação
E também evolução
No mundo espiritual.


Cadê a cidadania
Dos nossos educadores
Dos alunos, dos políticos
Poetas, trabalhadores?
Seremos sempre enganados
e vamos ficar calados
diante de enganadores?


Alertando ao Bial:
Reveja logo esse equívoco
Reaja à força do mal…
Eleve o seu coração
Tomando uma decisão
Ou então: siga, animal…

Autor: Antonio Barreto
Cordelista natural de Santa Bárbara-BA, residente em Salvador.

O texto está disponível no blog: http://marcohaurelio.blogspot.com/

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

PENSANDO NA MORTE paranóia cardiopata de um viciado

Sentado no vaso sanitário do Braseiro na Gávea
Terrificado
Penso, logo desisto.
A qualquer hora, vou morrer.
Vou ter uma apoplexia
Derrame de merda
Derramo bosta
Aqui, eu sei.
Flatulências
Não posso mais com doce
Meu bestunto tá derretendo
Não consigo respirar
Sinto dores no coração
Compressão
Premonição
Vou morrer de uma parada cardíaca
Ataque de cardiopatia
300.000 batimentos por segundo
Tô nem aí
Bato outra carreira neste banheiro nojento
Onde estou, ensaio sensações.
Pavor, não nego, tenho medo da morte.
Engulo...
... Um ecstasy
Minha testa pinga
Ouço zumbidos
Zumbis
Fantasmas
A passagem pro além eu comprei nas bocas da vida
No trem da extinção, meu sombrio embarcou.
Embaçou, meu olho dói.
Ocularmente, pressionado.
Sinto, a visão vai explodir.
A foice vai me partir
Enfarte
Não
Eu não
Socorro!
Minha cachimônia lateja
Dores
Pontadas
Náuseas
Vômitos
Por fim, a morte vem me buscar.
Não realizei nada
Ninguém me ouviu
Não ouvi ninguém
Sei que vou morrer
Vai ser agora
Não levarei saudades
Vou embora.

                                                                           PabloTreuffar

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

2011

Num mundo onde todos eram surdos as pessoas se entendiam com apenas um olhar.

Onde todos eram cegos, o entendimento era através do toque.

Finalmente, num mundo onde todos ouviam e enxergavam, ninguém podia se entender por ouvir e ver coisas diferentes um do outro.

                                                                                           Rafael Freitas

domingo, 26 de dezembro de 2010

Uma verdade sobre o Natal

Iam pai e filho, olhando vitrines e admirando os produtos.

- E aí, já escreveu a carta pro Papai Noel?

- Ainda não. Não tenho certeza se ele existe mesmo.

- Claro que existe, olha um lá bem na esquina.

- Com esse calor o cara fica usando essa roupa estranha.

- É que ele vem do pólo norte, lá é frio.

- Se ele dá presente pra todo mundo, por que não compra uma roupa nova? Aqui faz muito calor.

- Você tem razão. Mas e a carta?

- Não sei o que eu quero esse ano. Talvez uma bola de futebol ou uma bicicleta.

- Bola eu acho mais legal.

- Mais legal ou mais barata?

- Em conta também. O coitado do Papai Noel tem muitas crianças pra presentear e pode faltar dinheiro.

- Ninguém mandou ele inventar essa história de Natal.

- Não foi ele quem inventou o Natal. Dia 25 de dezembro é o nascimento de Jesus.

- E o pai de Jesus é o Papai Noel?

- Não, é José.

- Então de onde apareceu esse cara?

- Do pólo norte.

- E quem dá dinheiro pra ele comprar presentes?

- Não sei não... Você faz muitas perguntas sem resposta.

- Vamos lá que eu vou pedir meu presente.

- Ho ho ho...

- Papai Noel, eu quero uma bola de futebol de presente de Natal.

- Mas você foi um bom menino?

- Acho que sim.

Continuaram os dois caminhando em silêncio.

O Papai Noel desapareceu em segundos.

O pai não queria acabar com os sonhos do menino.

- Pai, aquele Papai Noel tinha uma cara de coitadinho. Resolvi pedir a bola de futebol mesmo.

- Acho que nosso Natal acabou.

- ?????

- O Papai Noel acabou de roubar minha carteira.

                                                                                       Rafael Freitas



Feliz Natal a todos...hohoho!

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Carta a Théo

Eu estava numa tremenda ressaca quando aconteceu.
Foi um susto, tanto pra mim quanto para a mais nova melhor mãe do mundo.
E aí você veio ao mundo poucas horas depois do último ultra-som.
Eu levei câmera de vídeo, pus uma roupa horrível e fiquei ali fingindo que estava bem.
Barriga aberta é mesmo algo muito feio. Lembrei de bacon e carne de porco.
Boca seca, mais pelo momento que pela bebida da noite anterior.
Deve ser difícil pra você ter um pai que adora a noite e os botecos.
Quando ouvi o primeiro choro, senti uma vontade imensa de chorar também, mas sabe como é, o pai sempre tem que ser herói.
Sua mãe não agüentou e derramou algumas lágrimas.
O primeiro bebê sem cara de joelho do mundo é meu filho. Lindo.
Nasceu inchadinho, parecia até que era filho de japonês. Com todo respeito à sua mãe.
Depois dos médicos, eu fui o primeiro a pegar você no colo e dizer seu nome bem baixinho ao pé do ouvido: “Seu nome é Théo, foi o papai que escolheu.”
Fiquei olhando pra você um tempão e confesso que me incomodou muito ver você perdido nesse mundo enorme.
E o tempo passa rapidinho né. Já faz um ano e sete meses.
Você já usou roupinha do Palmeiras, camiseta e sandália do Backyardigans, comeu papá e levou uns tombos.
Nadou na piscina do termas e do Amir, ouviu Ramones e Beatles, uns trechos do Nietszche, foi ao zoológico e andou de bicicleta.
Tem um All Star vermelho igual ao meu.
Sem dúvida é a melhor coisa da minha vida.
Sempre será.
Por isso trago seu nome tatuado em meu braço e seu rosto no coração.
Assim como esses 19 meses passaram sem que nós pudéssemos perceber, daqui a pouco você vai prestar vestibular, escolher uma profissão e seguir seu rumo.
Eu, que hoje talvez seja pra você um cara moderno e atual, vou ser ultrapassado e obsoleto.
Queria ser um humano melhor pra você sempre ter orgulho do seu pai.
Você tem nome de mecenas, de artista e de personagem mitológico.
Amo você pra sempre. Filho maravilhoso.
A cara do pai.
Claro que muito melhor.

                                                                                       Rafael Freitas

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

O HUMANO NÃO É CIÊNCIA EXATA

Conversávamos no chuveiro
Promessas de infidelidades fiéis
Noturnos
Ali
Sentados
Drogados
Chapados
No chão
Tudo diversão
Ela molhada
Arrazoava
Víamos como somos
Aceitávamos
Falávamos
Beijávamos
Batizávamos
Imaginávamos
Comendo outras
Vice e versa
Amores devassos
Paixões suadas
Éramos a goiabada e o queijo
Únicos permitindo plurais
Relações sexuais
Ela
Minha musa
Eu
Muito prazer
Gargalhávamos
Amávamos
Desejávamos
Assim
Primitivos
Mutantes
Individuais
Infinitos
Ajuizávamos filantrópicos
Éramos
Lascivos
Intensos
Essenciais
Luminosos
Mundanos
Profanos
Apaixonamos
Sem fim...
O fundo amor
Perfeitos um pro outro
Sim
Casamos nos enxergando verdadeiros
Delirantes bel-prazeres
Em fim
O tempo passa
Pobre de nós
Acreditamos
Inocentes
Palavras perdidas no etéreo
Versos o vento leva
Frases
Meu amor, eu te adoro.
Você é o grande amor da minha vida
!!!Mentira!!!
O eterno grande amor mentira
Chico é o cara
HOJE
Brigamos por nem sei
Eu sei
Sei bem
A vida é um vai-e-vem
Juramentos não existem
Na verdade mentimos
Demandamos aleivosia
Não as sinceras de Cazuza
Mentiras macabras
Medonhas
Não regamos
Podamos
Queremos tosar o outro
Não ria pra ela
Não toque nela
Não olhe pra ela
Não fale com ela
Negação
Relacionamentos baseados em moralismos gaiatos
Não queremos a felicidade do outro
Nem a nossa
Achamo-nos donos do livre arbítrio
Alheio
Não!
Sou diverso
Sinto-me iluminado
Consigo ser diferente
Persisto encontrar felicidade
Onde fica o livre-arbítrio
Liberdade de ser e de estar
Amar é aceitar o outro como é
É ver
Vejo
Minha mulher dançando
Flertando
Gargalhando
Com outros
São os jogos do amor
A vida
Penso contemplando a companheira
Amo-a do jeito que nem sei quem ela é
Não a quero exata
Não me quero exato
Jamais
Já
Mais
Um somado a um...
...Nunca foi igual a dois
O humano não é ciência exata

                                                                         Pablo Treuffar


quarta-feira, 3 de novembro de 2010

O céu de Clara

Calmamente, Clara contempla o céu.

Hoje a lua está cheia e as estrelas parecem ofuscar a visão de tanta luz que irradiam.

Firmamento: minúscula parte do infinito que podemos apreciar de nossa prisão perpétua chamada Terra.

E Clara olha, olha...como se não existisse mais nada a seu redor. Como se os jornais não noticiassem tanta desgraça, como se não existissem tantos problemas em um mundo tão pequeno...enfim, como se o ser humano fosse algo inquebrantável, com uma armadura inviolável e como se não existissem barreiras intransponíveis e a vida fosse acessível a todos, até mesmo aos que não a valorizam.

Todos os dias Clara repete o mesmo ritual: escova os dentes após o jantar, despede-se de todos, abre a janela e fica ali...admirada com tanta beleza, beleza que acaba passando despercebida pelos espectadores das novelas da noite.

Seus pais já a levaram ao psicólogo. Os colegas da escola se afastaram. Todos achavam anormal uma pessoa tão jovem se isolar do mundo para olhar o céu.

Mas, mesmo assim, Clara passava o dia inteiro esperando aquele momento único. O céu não era o mesmo todos os dias, e ela, depois de examiná-lo em detalhes, também não.

Não entendia como a humanidade podia ser tão egoísta e desumana com um infinito de beleza e paz logo ali, sobre suas cabeças.

E Clara, calmamente, contempla o céu.

Mas o céu parece estar menor a cada dia, e as estrelas parecem estar diminuindo em quantidade.

O tempo vai se passando, e a menina começa a ver as estrelas com menos luz e a lua, sem um porquê aparente, foi perdendo o foco...

Clara desesperou-se. De uns tempos pra cá, o único momento em que não se sentia só era quando admirava o infinito, pois estava acompanhada, e muito bem acompanhada, por constelações inteiras, signos, lua, planetas, pensamentos e Deus. Naqueles instantes ela sabia que Ele estava ali a seu lado, amparando e dividindo, somando e distribuindo amor.

Como viveria se não pudesse mais presenciar tudo aquilo?

Mas, cada vez mais, Clara perdia a visão.

Ninguém sabia porquê.

O mundo de Clara foi perdendo o brilho e a cor e, infelizmente, de forma irreversível.

Escuridão. Solidão eterna e permanente.

Era impossível aceitar.

Justo Clara, a menina que acreditava num mundo melhor e que sabia que tudo seria possível se, ao invés de olhar para baixo, as pessoas olhassem para o céu e pudessem perceber o quanto somos insignificantes diante de um processo tão complexo chamado galáxia.

Pena o ser humano não ser inquebrantável e Clara não ter a armadura inviolável que sempre idealizou para todos. Esqueceu de si mesma por pensar demais em causas que uma criança não poderia mudar e, mesmo se gritasse aos quatro cantos a fórmula exata da felicidade, ninguém daria ouvidos.

Os dias foram passando rápido, Clara aproveitava cada segundo como se fosse o último. Mas, assim como o dia termina, a escuridão chegou aos seus olhos.

A menina que calmamente contemplava o céu, perdeu a luz.

Nem médicos, nem seus pais, nem orações, nem ninguém conseguiu um remédio, uma solução.

E Deus?

Não era Ele quem sempre amparava a menina que tanto admirava Suas obras?

Deus não quis reverter a situação.

Enquanto o mundo desabava ao seu redor em busca de soluções e curas milagrosas, Clara esqueceu-se da escuridão, olhou dentro de si mesma e, como que por um milagre, pôde ver todo firmamento novamente.

Era lindo! Tudo simetricamente em seu lugar. Estrelas, planetas, lua, constelações e pensamentos.

Clara descobriu que o infinito que ela tanto amava estava ali, dentro dela mesma. Ela era o infinito.

Todos os planetas e constelações eram formados pelos mesmos elementos que formaram Clara; afinal, vieram todos da mesma explosão.

E, contrariando a todas expectativas, a vida da menina que olhava estrelas não mudou...

Todos os dias Clara repete o mesmo ritual: escova os dentes após o jantar, despede-se de todos e fica admirando o céu. Só que agora é diferente...

Ela não precisa mais abrir a janela.

                                                                                                Rafael Freitas


sexta-feira, 8 de outubro de 2010

A SOGRA

AH, LEVA, É O XALE, É O TRUCO, É A LUMA, É ELA, RAPOSA, É O TRECO DE TROCO, É O LAGO DE SODA, É A DROGA DO PITO, É A TABA NO RITO, É A CAMA DO BRUTO, É O RUDE ÓDIO DO ROMANO, É O OVO DO LOBO, É O GAMO DA LOBA, É A CAPA DO DEMO, É A CARTA MÁ, É O COTO DO MURO, É A LAMA DA TOCA, É A CASA DA TOLA, É A TALA, É A TARADA DA RATA, É A LATA, É A LOTADA SACA, É A COTA DA MALA, É O RUMO DO TOCO, É A MATRACA, É O MEDO DA PACA, É A BOLA DO MAGO, É O BOLO DO VÔO, É O NAMORO DOIDO E DURO, É O TURBO DA MACA, É O TIRO NA BATA, É O TIPO DA GORDA, É A DOSE DO GALO, É O CORTE DO CERTO, É A SOPA RALÉ, É A MULA, É O CURTO, É ELA, XÔ, É A VELHA.

                                                     Smiley Castelo Branco


É o maior ou não é?

Já leu ao contrário? (rs) 

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O POETA ARA ATÉ O PÓ!

SOCORRAM-ME SUBI NO ÔNIBUS EM MARROCOS!!!

Esse palíndromo é um dos mais conhecidos da língua portuguesa e todos nós sabemos o quanto é difícil escrever um.

Amanhã postarei um texto de um poeta que escreveu o maior palíndromo da língua portuguesa, Smiley Castelo Branco, que além de excelente cirurgião, também escreve como ninguém.

Aguardem.

Obs: O título é um palíndromo meu.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

O mendigo que queria ser rei

Certo dia, andando pela praça, pude ver ao longe um senhor.

Cabelos grisalhos, roupa velha e rasgada, parecia até embriagado, e gritava a todos pulmões:

- Eu ainda vou ser rei! Vocês verão! Eu ainda vou ser rei!

Todos que passavam por ali desviavam o olhar, mudavam de lado na calçada, como se nada acontecesse, como se aquele pobre coitado oferecesse algum perigo.

Vi de onde estava um jovem se aproximar, talvez para caçoar do pobre, ou quem sabe, oferecer alguma ajuda. Mas, quanto mais o rapaz se aproximava, mais o velho gritava:

- Eu ainda serei rei! Vocês duvidam? Eu não sou louco! Vou ser rei!

O jovem, meio desconfiado com a situação, parou a uma certa distância do pobre louco, e como que num tom solidário perguntou:

- Mas o senhor não acha que está um pouco mal vestido pra ser um rei? E se talvez melhorássemos sua roupa?

O velho olhou profundamente o rapaz e silenciou.

Um silêncio que parecia concordar com a roupa maltrapilha, mas que deixava claro que era uma concordância sem aceitação.

- E então, o que o senhor acha?

- Eu acho que você está com gozação, não existem pessoas boas nesse mundo. Você quer que eu aceite sua ajuda e quando me levar nessa sua conversa dá aquela gargalhada na minha cara.

- Não senhor. Parece estranho, mas acredito em você. Eu apenas sugeri que essa sua vestimenta não pode ser de um rei, não acha?

O velho, mesmo desconfiado, concordou com a cabeça.

- Então, não posso te ajudar?

- Não. Cada rei se identifica com seu povo pela vestimenta.

- Então qual é seu povo, se todos que passam por aqui estão bem vestidos?

- Meu povo está escondido, com medo de vocês que passam por cima de todos em busca de dinheiro.

- Escondido onde? Atrás das árvores da praça? - indagou curioso o jovem.

- Escondido em minha memória, em minha imaginação. Ou será que porque sou mendigo não posso ter sonhos... Um dia meu povo voltará, e finalmente poderei ser rei.

- Então acho que não posso mais ajudar o senhor. Um rei se identifica com seu povo devido sua vestimenta, sendo assim, não pode trocá-la, e essa era minha intenção. Seja feliz companheiro, agora preciso realmente ir. Adeus.

O velho pensou...

- Não. Sinto muito, mas você não pode ir meu jovem. Tenho um brilhante futuro pra você em meu reino. Um grande rei necessita de um fiel escudeiro que lhe dê ouvidos, e ninguém aqui foi digno de parar e me ouvir.
Esse foi um dos primeiros contos que escrevi.

Grande abraço,

Rafael Freitas


sábado, 25 de setembro de 2010

Tempo

Não sou nenhum grande poeta mas às vezes me arrisco.
Segue uma poesia um pouco antiga. Em breve postarei um novo conto que acredito transparecer um pouco mais de amadurecimento da minha parte frente à literatura.

Grande abraço.


Tempo

Ampulheta serve para dividir o tempo em dois
O passado O presente
O que foi O que está sendo
E a gente fica Vendo o tempo passar
E o tempo vai Passando sem enroscar
No meio De nossa vida
E no meio Da ampulheta
Escorre Escorre
Escoa Escoa
E cai...
Cai
A bolsa
de valores
Junto a nossos valores
Vão chegando rugas,
dentadura, calvície ou cabelos brancos
Vão se passando os anos, os meses, os dias, as horas,
quinquênios, biênios e milênios e a gente esperando
Esperando...ganhar dinheiro, trocar de carro, ser o primeiro, ganhar no jogo,
Um bom emprego, um carro novo, ter mais sossego, tudo de novo...
E espera tanto, tanto...que acaba se esquecendo de ser feliz.

Rafael Freitas

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

De fato

Sua cama parecia uma película fina, que a qualquer momento estouraria lavando o chão com qualquer coisa parecida com fluidos. Não se movia. Qualquer movimento seria fatal.

Ficou assim por horas, até ouvir passos no corredor.

A porta se abre:

- Acorde! Vamos! Levante e vá embora!

Silêncio.

A voz continua:

- Sei que não dorme e nem dormiu a noite toda. Levante-se e vá embora!

Sem voltar o rosto:

- Embora pra onde? Por quê?

- Os motivos você conhece bem.

Sem entender o que se passava, pensa, respira fundo e pergunta novamente:

- Por quê? O que aconteceu? O que lhe disseram?

- Você sabe muito bem.

- Sei o quê?

- O que aconteceu. Sempre lhe avisei para tomar cuidado com as pessoas.

- Mas o que disseram?

- O que eu mais temia ouvir. Não esperava isso de você.

- Se não esperava foi porque não fiz.

- Tenho provas.

- Quais?

- Fotos, depoimentos e endereços. Não há como negar.

- Nem sei o que há, o que vou negar?

- Você não é homem. Por que não fala a verdade?

- Não existem verdades.

- Lá vem você de novo com filosofia. Chega de ser infantil. Quem tem ofício e responsabilidade não tem tempo de filosofar.

- Nem de existir.

- Falou o existencialista!!!

O silêncio voltou. Dessa vez mais pesado e denso. A tensão aumentou. Novamente a voz:

- Vamos! Chega de conversa. Vá embora daqui!

O sujeito levantou-se devagar. Não queria que a película se rompesse.

Pegou uma mochila desbotada embaixo da cama e começou a muni-la de roupas.

- Você não tem nada pra levar. Tudo aqui é meu! – e num grito enraivecido – Vá embora! Desgraçado! Destruidor de famílias!

- Não quero mais discussão. Vou.

- Vai pra onde, seu idiota?

- Pra casa de amigos. E, afinal, isso não lhe interessa mais.

- Amigos? Ainda acha que tem amigos?

- Sempre os tive, você sabe.

- Seus conhecidos foram seus delatores.

- Você quer que eu os odeie. Sempre quis.

Joga as fotos na cama. Realmente foram eles.

- Não me é um choque. Sempre tive o pé atrás com esses porcos.

- Então, pra onde vai agora? Ninguém lhe dá a mínima. – com desprezo – Idiota...

- Vou pra casa de desconhecidos. Alguém terá piedade.

Silêncio ensurdecedor.

A voz começa a gargalhar como em filmes de terror. Pára. Olha pro sujeito e diz entre dentes:

- Pode ficar.

- Você é um louco.

- Pode ficar. Volte a dormir.

- Por que isso?

Pausa.

- Nunca o conheci de fato.

                                                                                                 Rafael Freitas

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Encontrou Jesus é o caralho!


Evangélicos aterrorizam
Não eximo a Igreja Católica
Pelo contrário
Mãe de toda desgraça
Todavia
Contudo
Entretanto
Evangélicos
Fiéis
Silgas Malfalares da vida
Esses
Com tetos de vidros
Templos desabantes
É!
A casa caiu
Ruiu
O telhado
Ploft
Em outros tempos
Chutavam Santas
Brããbouos e whatevers
Em seus iates
Helicópteros
Jatinhos cheios de putas
Vivem rindo fiéis
Depositantes de dízimos
Rasgando dinheiro
O próprio dinheiro
Favelados pagam não tendo
Para serem perdoados
Perdoados do quê
Se ganha muito dinheiro em nome da fé
Jesus me ama
Jesus me ama é o caralho!
Não venham com papo de Jesus
Não preciso de intermediários, interpretando em causa própria.
Tiro na testa dos Silgas Malfalares
Pastores
Pastores de cu é rola
Coitado de Jesus, o verdadeiro!
Livre arbítrio
Eu acredito em livre arbítrio
O Jesus usado pelas Igrejas para fins contrários a tudo que o próprio pregou
Esse Jesus eu quero que se foda
...Eee...
Os sociopatas
Usam Jesus para dissimular sua essência
Pagam dízimos
Pronto
Agora são melhores do que eu
Escondendo-se no falso sublimar
É mole
Eu mato
Estupro
Roubo
Pago o dízimo
Aí
Silgas Malfalares diz eu ter encontrado Jesus
É
Seus problemas acabaram
Mate hoje
Encontre Jesus amanhã!
Tudo certo
Tá de sacanagem!
Canalhas a um piscar de cu pra sucumbirem
Convencer-me...
Nunca!
Preferia mil vezes quando a professora da academia assumia-se vadia
Tinha dois namorados
Chupava meu pau
Ela era feliz
Agora encontrou Jesus
Vive lendo a bíblia
Pregando
Cabisbaixa
Isso resolve tudo
Hahaha...
E o meu vizinho
Tinha um esquema de roubo de carros
Todo mundo sabia
Falava com geral
Vivia rindo
Sempre com lindas mulheres
Também encontrou Jesus
Vive na Praça General Osório
Pregando
Sozinho
Tenho medo desses sociopatas regenerados
Eram mais honestos antes de encontrar Jesus
Não se negavam
Por isso digo e repito
Encontrou Jesus é o caralho!

                                                                                                     Pablo Treuffar

domingo, 15 de agosto de 2010

A última ceia


Já não suportava mais aquela dor.

O abdome lhe doía com tanta intensidade que o estava levando à loucura.

Não se lembrava mais quando fora a última refeição. Perdera a noção de tempo e espaço.

A fome era excruciante. Ouvia suas entranhas suplicarem por pão.

Ali no chão, encolhido junto à parede, contorcia-se.

A lucidez há muito o abandonara.

Imagens desconexas surgiam em sua mente como slides projetados. Não entendia.

A mente gritava: Fome!

O corpo implorava: Morte!

Em seu delírio, arrastou-se até o caixote. A mão trêmula apanhou a única faca.

Com muito esforço, despiu-se.

Enterrou a faca na magra coxa. Cortou-lhe um pedaço, levando-o à boca.

A fome era tamanha, sequer mastigou.

Prosseguiu a automutilação.

Mais um pedaço. Desta vez saboreou.

Nunca experimentara nada parecido.

Apreciou a iguaria.

Entregou-se àquela refeição.

A última de sua vida.

                                                                                                            Renato Duran

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

A morte de um pensamento

Estou neste lugar há três dias. Não como, não durmo e não bebo nada há três dias.

Você consegue imaginar o peso desses três dias? (pausa)

Minhas costas doem muito...meu nariz não pára de escorrer...e tudo isso há três dias. (olha no relógio) Mais precisamente 39 horas e alguns minutos.

( Dá uma longa tragada no cigarro)

Três dias....(pausa longa)

Pelo menos deu tempo de pensar na besteira da minha vida.... (pausa)

Fachada! Pura fachada....

Amigos...festas, mulheres, bebida....ah....

Filhos da puta...barulho, vadias e vômito...isso sim. (começa a se exaltar)

Era só prejuízo!!! (muda de repente)

E pra um pobre metido a bacana qualquer notinha já faz uma enorme falta...

Mas não, que isso...não esquenta não...depois a gente acerta...

E acertava??? Acertava nada!E o idiota aqui bancando...um monte de marmanjo, puta e vagabundo.

E pensa que depois, na hora que eu estava liso, aparecia algum desgraçado pra me ceder um cigarro? (risos)

(Acende um cigarro)

(Pausa)

Pelo menos não me deixaram sem cigarro neste fim de mundo.

(longa tragada)

Fui dormir na sexta, acho que era sexta, e acordei aqui...em cima desta mesa, numa ressaca enorme, sem nada pra comer e nenhuma cervejinha...numa vontade de fumar. Ainda bem que achei 5 maços de cigarro jogados pelo chão...e até fósforos deixaram...

(pensa e olha para os enforcados)

Deve ter sido o último pedido desses daí: “-O chefia, me dá um cigarrinho antes da caixa prego!”

(risos irônicos, seguido de choro convulsivo)

E no fim é isso....um cigarrinho e vela....se acenderem uma vela por você... (pausa, senta na mesa, chora com a cabeça entre as mãos)

(Se recompõe)

O pior de nossa vida é quando a gente sabe que está morto.

Não digo morto, enterrado, igual a esses aí não...O pior é quando a gente se torna um pensamento morto.

Nada mais faz diferença, nem amor de mãe, nem de família, nada...nada mesmo!

Minha mãe...uma maníaco depressiva...vive enchendo o saco em nome da vida dos outros...e família então....um bando de urubus sedentos por carniça, loucos pra te ver na merda, pedindo esmola, e de preferência pedindo esmola pra eles...(pausa)

Lembro da Clarinha...(com emoção) Branquinha, cabelos negros, cinturinha fina...ah...

Mas, de que adianta esse amor platônico, se já me sinto morto. (silêncio)

Estou cinza, sem cor de vida, e que vida que eu levei não é mesmo?

Agora, eu fico olhando pra esses três aí...

Três corpos apodrecendo que nem conseguem me causar piedade!

O que será que leva uma pessoa ao suicídio? (longa tragada no cigarro)

Minha vida sempre foi meio vazia, mas em tirar minha própria vida eu nunca pensei! Nunca mesmo!

Se a vida já é uma merda aqui na Terra, imagina o inferno como deve ser... (silêncio)

(Gargalhada)

Olha que besteira que eu estou falando!! Inferno?! Existe maior inferno que acordar cedo, encarar o diabo do chefe, ficar em fila de banco e voltar sozinho pra casa?

Tenho certeza que não.

(Longa pausa)

Mas o que levou esses aí a dar fim nessa droga de vida?

Aposto que eles não tinham cigarro! (risos)

E de tão acostumados que ficamos com a correria da cidade, esse silêncio e essa calmaria bucólica nos deprime.

(Reflexão)

O cara fica a vida inteira correndo de um lado para o outro atrás de dinheiro e promete pra si mesmo que quando se aposentar vai ter sossego. Aí o cidadão se aposenta e morre! (gargalhadas)

Sossegou mesmo! Sossego eterno!

Só não se dá bem quem tem a alma atormentada. Aí não tem sossego. Tipo esses suicidas aí.

Mas,pensando bem,será que existe mesmo uma alma nesse nosso corpo? Se Deus existe e cobra bondade dos seres humanos, por que Ele deixou que inventassem o capitalismo?

Veja bem, como o cara vai bancar o bonzinho, se o tempo todo ele tem que pensar em produzir, em ganhar dinheiro para comer? Não dá pra ajudar o ceguinho atravessar a rua se você está atrasado para pegar o ônibus! Muito menos fazer uma doação para crianças carentes se suas contas estão atrasadas. E o pior é que quem tem tempo e dinheiro pra essas coisas se preocupa mais com a neve de Bariloche do que com o aquecimento global.

Definitivamente alma não deve existir. Nem reencarnação. O ser humano já leva uma vida de cão, aí como se não bastasse, é obrigado a viver de novo porque não pagou todos os pecados em sua breve existência.

(Acende um cigarro e dá uma longa tragada)

Pra falar a verdade, eu nunca fui tão fiel assim, e acho mesmo é que Deus não existe!

Pronto, falei!

Como o mundo pode ser assim tão perverso e desumano se há no céu um Deus justo e bondoso? E não me venham com essa de livre arbítrio, que tudo que acontece na Terra é exclusivamente causado pelo homem, mesmo porque a maioria dos homens não têm direito nenhum de escolha, quanto mais livre arbítrio. Aliás, nem sabem o que quer dizer a expressão.

(Pausa)

Estou me sentindo bem mais aliviado. Afinal, essas confissões a gente não faz toda hora.

Já pensou, chegando no trabalho, olho pro meu chefe e digo: “- Bom dia! Eu não acredito em Deus e muito menos na bondade das pessoas!”

(Dá a última tragada no cigarro e joga a ponta)

(Pausa)

Pensando bem, olhando esses três aí, até acho que eles tem mesmo é coragem. Renunciaram à hipocrisia desta vida.

(Olha fixamente os cadáveres e fica um tempo atônito)

Tem mais duas forcas prontinhas ali.

(Longa pausa)

Uma deve ser pra mim.

(Acende outro cigarro e fuma sem dar uma palavra)

Os outros apenas não fumavam...

(Vai até uma das forcas, sobe no tronco da árvore)

Espero que o próximo aproveite melhor os três maços de cigarro que sobraram.

(A forca faz o seu papel)

                                                                                              Rafael Freitas


quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Carta aos críticos

"Queridos críticos literários, 
Não, eu não tenho depressão!
A literatura nem sempre é a realidade.
Ela simplesmente é um quadro da realidade. Uma pintura.
Cada um a interpreta à sua maneira. Cada um a pinta à sua maneira.
Escritores são pintores da realidade.
Críticos são aqueles que não sabem pintar."

                                                                                          Rafael Freitas

sábado, 31 de julho de 2010

Meu aniversário

De grande homem que fui tornei-me um lixo.

De grande lixo que sou tornei-me homem.

Naquele dia tão importante não conseguia pensar em mais nada a não ser numa data indefinida há mais ou menos duas décadas e meia atrás.

Não enxerguei risos e fotos, não ouvi falas e risos. Fiquei inerte. Escultura humana num viaduto à espera de trocados.

Só me recordo da importância do momento.

Nem sei qual data me era mais insólita: se a presente ou a passada, se o agora ou o remoto.

Mastiguei lágrimas em solidão. Felizmente não fui notado.

O dia era mais importante que o ser.

Lembrei-me de minha infância. Feliz ou não já fui criança.

Criança fui feliz ou não.

Nasci.

Sempre ouvi histórias de um período além corpo que não tenho certeza se existiu. Mas me juram que tenho motivos.

Faço força, bebo todas, extrapolo. Não me lembro.

Não me lembro de ter sido realmente feliz e nem sei se isso realmente importa.

Quando não se tem algo não se pode sentir falta.

Sei que conheci pessoas felizes. Mas nunca as vi sozinhas no banheiro.

Senti-me num retrocesso em câmera lenta.

Quando foi que dei os primeiros passos?

Quando disse a primeira palavra? E qual foi?

A primeira letra?

Não me recordo.

Nunca me recordaram.

Pasmem: meus olhos marearam-se.

O exercício simples da memória não me foi possível.

Lembro-me apenas de semanas recentes e de dias torturantes: escola imbecil, pais exaltados, avós ausentes, dias monótonos, brigas inúteis.

Sei que conheci pessoas felizes. Mas nunca as vi defecando.

Usurparam minha infância até que me rebelasse.

Fui embora sem motivos aparentes, mas cheio de motivos no coração.

Bebi muito, fumei. Tentei existir.

Não consegui.

Voltei sem ter pra onde. Fiquei a mercê de outros.

De novo fui embora sem ter pra onde ir. De novo retornei sem ter onde ficar.

Achei melhor reproduzir minha indecência: decidi pela docência.

Sofri deveras, rezei à toa. Salário merda, meu dia: bosta!

Achei melhor conjugar o verbo: união.

Casei-me.

Separei-me.

Recasei.

Agora estou aqui, sem saber o que, pra que, por que da existência deste momento.

Tudo que me era permitido tornou-se impróprio.

O que era casual, corriqueiro.

Exceção, regra.

Inútil, presente.

O dia estranho não foi lembrado.

Não tem importância o que sou, mas somente o que fiz.

Aniversário do meu filho.

                                                                         Rafael Freitas



domingo, 25 de julho de 2010

Um homem de Deus

- Em nome do pai, do filho e do espírito santo...

- Amém!

- Padre, eu vim me confessar.

- E quais são os seus pecados, meu filho?

- Padre, eu sempre fui pobre! Nasci e cresci numa cidadezinha do interior cheia de pessoas limitadas e ignorantes. Ensinaram-me, desde pequeno, que Deus é bom, justo e que nos ajuda. Ensinaram-me também o que é certo e o que é errado. Pois bem, levei toda minha vida baseada nesses ensinamentos. Nunca prejudiquei quem quer que seja. Nunca pratiquei crimes. Nunca humilhei o próximo e sempre trabalhei.

- Muito bem meu filho, foi isso que Deus nos ensinou.

- É padre, mas agora, depois de tantos anos, fico pensando na minha vida e não consigo ver a ajuda divina que me prometeram. Deus não me ajudou até agora! O senhor, que é uma pessoa instruída e estudada, pode me dizer se esse pensamento é pecado?

- Olha meu filho, não digo que seja pecado, mas que você está equivocado! A ajuda de Deus não é para esta vida, mas sim para aquela que vem após a morte. Devemos seguir Seus ensinamentos para alcançarmos o Céu e gozarmos de toda a bondade de Deus, eternamente.

- Mas padre, isso não é contraditório? Eu vejo tantas pessoas que não dão a mínima para esses ensinamentos. Umas renegam a existência de Deus. Outras praticam crimes, prejudicam e humilham o próximo, aproveitam-se dos outros e todas vivem muito bem. Moram em casas luxuosas, tem bons carros, esbanjam dinheiro e não passam necessidades.

- Essas pessoas, meu filho, terão que se acertar com Deus no dia do Juízo Final.

- Padre, eu sei que o senhor sabe das coisas. Também que é um homem de Deus aqui. Não daria pro senhor conversar com Ele para me ajudar um pouquinho agora, nessa vida? Olha padre! Eu tenho mulher e cinco filhos. Não tenho casa pra morar. Estou desempregado e meus filhos choram de fome. Não daria pro senhor ver com Ele, assim, um tipo de adiantamento!

- Meu filho, isso não existe! Deus dá aquilo que cada um merece.

- Padre, eu sei que o senhor sabe das coisas, que é instruído e estudado. Então me diga: o que eu fiz de errado pra não receber uma ajudinha de Deus? Será que ele não gosta de mim? Padre, não foi Deus quem fez tudo que existe?

- Sim meu filho, todas as coisas!

- Então Ele fez todas as coisas e as dá para quem Ele acha que merece, não é isso?

- Pode-se dizer que sim, meu filho!

- Padre, o senhor não acha que há um equívoco por parte de Deus na avaliação do quanto cada um merece?

- Não meu filho, Deus nunca erra!

- Padre, se Deus nunca erra e não me deu nada, então o errado sou eu, o senhor não acha?

- Não entendi, meu filho.

- Ora padre, se Deus nunca erra em sua avaliação quanto ao merecimento de cada um e ele não me deu nada, só pode ser porque o errado sou eu.

- …

- Obrigado padre, o senhor me ajudou muito. Sozinho não conseguiria enxergar que os ensinamentos dados a mim por aquelas pessoas limitadas e ignorantes estavam errados. Ainda bem que vim aqui. Somente o senhor, um homem de Deus, poderia ter me mostrado isso. A partir de agora Deus começará a me ajudar.

                                                                                           Renato Duran

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Egoísmo

"Fui criado para ser um egoísta. 
Aprendi que ninguém presta o quanto eu, que ninguém serve pra nada...
Só eu!!! E aqueles que estão próximos a mim...
Aprendi a julgar, a estereotipar, a discriminar.
Acabei descobrindo que eu também não presto e que não sirvo pra nada.
Sou um estereótipo, réu confesso.
Na escola familiar do egoísmo, ainda não consegui superar meus mestres."

Rafael Freitas

sábado, 17 de julho de 2010

São falíveis


Não sou nada...

Você me cobra, mas nunca ti prometi nada.

Ti ou te, foda-se a forma.

Cansei dela...

Só sei que me fodo...

Fodo-me como nada se fode nesse mundo...

De que me adianta ouvir que tenho “potencial”

De que me adianta ouvir que sou “muito bom...”

Bom pra quê?

Isso é tudo piada...

Tenho vontade de mandar tudo à merda.

Mas por que não mando?

Vá tudo à Merda!!!!!!!!

Paisinho de bosta esse em que vivemos.

A mídia marrom predomina...

A síndrome de holofote prevalece.

Aqueles a quem são delegadas as funções de Estado

São falíveis.

São vaidosos.

São humanos.

                                                                                          Renato Duran

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Sem amarras

- E aí, o que sente agora?

A verdade devia ser escondida. Queria mesmo um suicídio, um abandono, uma fuga. Não queria a mesma vida. Promessas eram de cura por análise.

- Me sinto bem melhor. (Não era o que queria dizer)

- Tinha certeza. Desabafo faz bem em qualquer situação. Dois em cada cem não melhoram. Sabia que seu caso era comum.

- Você sabe mesmo das coisas.

- Sem falsa modéstia, sei mesmo.

- Sim.

- Sim o que?

- Sei lá. Sim.

O silêncio respondeu a pergunta.

- Você mente.

- Minto?

- Acho que sim. Acho não, tenho certeza.

- Que eu minto?

- Sim.

- Por quê?

- Não olhou nos meus olhos.

- Olho agora então.

- Me diga, olhando nos meus olhos, como se sente.

- Bem.

Olhos não dizem nada. Nem palavras.

Nada.

- Agora sim!

- Sim o quê?

- Verdade! Vejo verdade em você!

Nunca mentiu tão bem.

- Tenho alta?

- Ainda hoje.

- Quantas horas?

- Três ou quatro.

- Estou esperando.

Queria ver a família pela última vez. Seria incerto o futuro.

Cinco horas depois estava livre.

Adeus, bolachas e endereço.

Estava só.

Perambulou pelas ruas. A casa estava vazia.

Seria o endereço?

Era.

Sumiram. Pai, mãe, todos.

Chorou. Pensou em voltar.

Era melhor assim.

Finalmente, verdadeiramente só.

Sem choques.

Sem olhares duvidosos.

Sem amarras.

Só.

Liberdade!

Liberdade antes que tardia!

Toda prisão uterina tem como finalidade a libertação da morte.

Toda prisão hospitalar tem como finalidade o controle corporal.

Não tinha controle.

Não tinha ninguém.

O mundo todo era seu. As ruas, as esquinas, a cidade.

Sentou-se no meio fio. Rezou.

A única coisa que aprendera durante todo tratamento foi a devoção em Deus.

Deus.

A cura.

Deus.

O ópio.

Deus.

Deus.

Quem era Deus?

O homem ser semelhante a Deus era impossível.

Seria Ele insano como o viam?

Vagou alguns dias em plena liberdade.

Não encontrou família, nem amigos, nem Deus.

Nada.

Resolveu voltar aos choques.

Ensandeceu.

Enlouqueceu.

Voltou pra casa.

                                                                                      Rafael Freitas