sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Lesmas à procura de sombra

As dores de cabeça aumentam a cada dia.
            Aquelas dores alucinantes, alucinógenas, halógenas. Luzes. Imagens distorcidas, deformadas.
            Dor. Dormência.
            Não sentir as mãos é algo assustador.
            Assusta. Dor.
            Os remédios, comprimidos coloridos, muitos miligramas. Sem efeito. Rarefeito.
            Pareciam ser placebo. Maisena e pó de vidro. Drogas da modernidade.
            Moderna. Idade.
            Idade das trevas, noite longa, sonora. Qualquer ruído, por menor que fosse, era orquestra desafinada, sem maestro.
            Levantou-se ainda trêmulo. Sem rumo. Insone, insípido, insosso. Engoliu um gole d’água, dois comprimidos verdes e vomitou.
            As noites cada vez mais curtas. Os dias cada vez mais longos. A vida cada vez mais breve. Os amores cada vez mais efêmeros.
            Efêmeros. Transitórios. Passageiros.
            Ainda lia alguns velhos livros. Mircea, Kundera, outras besteiras.
            Aprendeu a cozinhar bem. Pra ninguém comer.
            Estudou história, filosofia, música. Escreveu textos nunca lidos. Compôs canções nunca ouvidas. Monólogos de mesa de bar.
            Criou forças. Tentou criar dois filhos. Tentou criar coragem.
            Uma vida de tentativas. Criação de expectativas. Nunca criou um cachorro.
            Banho longo. Menos dor. Mais resistente aos remédios.
            Mesmo caminho, mesma trilha, mesmos pombos, mesmos problemas.
            Ainda são sete da manhã. Sem Cristo na janela.
            À espera. Esperança de que a dor não aumente, não volte, desapareça.
            Caso volte, que seja passageira como as coisas que pareciam boas.
            Coisas boas que deixaram seus rastros, como lesmas à procura de sombra.
            Lá vem o sol. O sal.


                                                               Rafael Freitas


quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Ventos do outono

A contradição dos fins de tarde
É o horizonte não dizer nada
É não se ver os mesmos olhos
Que há pouco tempo eram só meus

A eterna esperança vaga
Da mudança repentina
De um dia sermos algo
Mesmo sem nunca sermos um

Quero ser em seu horizonte
O fim de tarde amarelo
Silencioso, quente e triste
Uma tristeza leve, infinita

Como os ventos do outono

                                                 Rafael Freitas




quinta-feira, 30 de abril de 2015

A eterna carta a Théo

                Não ando só. Provei da solidão por tempos, senti o frio da casa enorme, dos dias silenciosos, novembros eternos.
                Acendi velas, rezei, pedi. Busquei em mim o que sempre esteve ali e nunca foi notado. Enxerguei a mim mesmo em seus olhos. Olhos vivos, espertos, de vidro. Olhos meus, do oriente, atentos ao enorme castelo, atentos à pequena formiga.
                Amassamos barro juntos, abraçamos um ao outro.
                Devia ter ouvido mais seus olhares, seus sorrisos. Por não ouvir, agora tento corrigir meus erros e o que não tem mais remédio luto para aprender a conviver.
                A vida é esta batalha que vemos e vivemos todos os dias. Eu sei. Você sabe.
                Meu presente e minha obrigação de não desistir moram em você. Moram em nosso amor, moram em nossos olhares, segredos e silêncios.
                Você é generoso, abriga o mundo em seu coração. Agora abriga o irmão não consultado. Sempre prevendo o futuro, a diferença da idade com o passar dos anos, as possibilidades de diversão, do riso vivo.
                Agora e sempre vocês são minha família. Você e seu irmão, que um dia, quem sabe, se acerta e se ajeita ao nosso jeito, à nossa maneira de encarar a vida.
                Já se foi mais um ano. O mundo cresceu. Você cresceu. Nossa família cresceu.
                Meu amor sempre cresce.
                Let’s go. Hey, ho!

                                                          Rafael Freitas



                

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Velho muro

Vamos consertar os erros
Abrir novos bueiros
Pra essa lama escoar

Vamos aparar arestas
Viver sempre em festas
Para a vida melhorar

Vamos deixar ir embora
Já chegou a hora
De saber onde ficar

Vamos procurar a luz
Que a todos vai cegar
O que tanto nos seduz
Ainda pode nos matar

Atrás do velho muro
Rabiscado por poesia
Em um novo mundo
Nasce um belo dia

                                             Rafael Freitas


terça-feira, 16 de dezembro de 2014

O poeta

O poeta é um desalmado
Quase sempre desarmado
Sem chance, sem defesa
Solidão em pó lhe cobre a mesa
Cobre-lhe a alma a lama
Embaça os olhos, apaga a chama
Apaga o sol, fecha o horizonte
Escurece então, intolerante
E sofre só
Somente sofre.




Rafael Freitas


quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Sou um menino

Ainda sou um menino
Sem posses, sem dono
Sem sono ou destino

Mas não sou mais aquele menino
Sem medo, sem credo
Comprido e franzino

Quantos meninos ei de ser
Negando a velhice precoce
Negando o catarro e a tosse
Negando o entardecer.

                                       Rafael Freitas



terça-feira, 18 de novembro de 2014

O filho pródigo

Não sou prodígio, sou pródigo.
Aquele que perdeu tudo e pôs tudo a perder.
Nesta vida, em outras vidas, toda vida.
Sou o filho que não presta, que não orgulha, que não se inveja.
Sou o irmão desmiolado que não sabe em qual lado está.
Sou aquele, sou aquilo, sou apelo.
O galanteio das putas tristes.
O relinchar dos bêbados sem nome.
O sucumbir da peste negra.
Sou absorto, meio aborto, feto feio.
Bucho aberto, choro mirrado em meio a nada.
Mas não tenho o belo olfato da coisa de Süskind.
Nem sou o bicho de Bandeira.
Sou sem bandeira, sem pátria, sem páreo.
Perdi as asas rumo ao sol.
Estou perdido, sem leste.
Cá estou, preso em mim mesmo.
Enfim, sós!

                                              Rafael Freitas


terça-feira, 23 de setembro de 2014

As cartas que (não) escrevi

São rascunhos, pálidos e amarelados pelo tempo.
Guardados mais na memória que na velha caixa de um presente antigo.
As embalagens, quase sempre, duram mais que os presentes.
Os textos não publicados, não enviados, não digeridos parecem ter implorado o anonimato. Transparecem outros tempos, um outro autor que não eu.

“Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas”
O Pessoa estava certo.
As pessoas que amam são tão ridículas quanto o que escrevem.
Pessoa e as pessoas. O autor e os anônimos.
Criei pseudônimos em outros tempos.
Tinha medo que descobrissem minha farsa ou minha perversão, quem sabe meus anseios, minhas fraquezas.
Ninguém conheceu meus codinomes: as cartas nunca foram enviadas.
Agora, estas mesmas cartas, fazem parte de um museu particular, um passado escrito à mão, borrado, sem subjetividade, em versos pobres.
Num mundo em prosa qualquer rima é soneto.
Já me senti poeta, Pessoa, hoje me sinto mais um, qualquer pessoa.
A vida é concisa, obtusa, sem rima, em prosa curta.
Talvez o tempo explique minha mudança.
Um tempo sem relógios, marcado por estações, por outonos infindáveis.
Lembro das nebulosas de Carina, dos boleros de Ravel, dos ciclos eternos, sem começo ou fim.
Não sei ainda qual foi a primeira carta escrita. Não tem datas, locais, nem horários. Tem apenas uma caligrafia à tinta que se modificou com o passar dos anos.
Vão todas para o lixo. O lixo raso da memória.
Pode ser que nunca mais escreva um poema de amor, pode ser que nunca mais ame, pode ser que nunca mais.
Sem remetente. Sem selo. Sem envelope.

                                                           Rafael Freitas


terça-feira, 26 de agosto de 2014

Sidarta, meio confuso

Novamente os olhos se abriram.
Não foi desta vez. Talvez não seja breve. Talvez não seja nunca.
A eternidade é a busca que não quer alcançar. Não quer.
Outros querem. Nomes, placas, cadernos de visita, saudades de alguém.
Os olhos se abriram remelentos, secos, vermelhos.
Olharam ao redor sem grandes visões. Um quarto, um armário de portas abertas, uma TV com o pior dos programas matinais.
Pode ser que tenha superado o sentimento triste que a solidão traz.
Não se sente mais só.
Não faz questão de companhia.
Talvez o tempo, a idade, os desastres, os enganos não tolerem bruxismo, divagações, respirações ofegantes de outra pessoa.
Sempre dorme enquanto ronca. Não incomoda a si mesmo.
As horas correm, os prazeres diminuem.
Sabedoria pode ser apenas ser. Meio Sidarta, meio confuso.
Ainda existem cervejas, bares que nunca fecham, alguns amigos bons, cigarros e bitter tônica.
Já é hora do trabalho. Melhor trocar as roupas, tirar estas remelas, esquecer velhas mazelas, dar bom dia às Cinderelas.
A vida é boa, cansativa, enfadonha, porém boa.
O que tiver de ser, mesmo que nunca seja, já é alguma coisa.


Rafael Freitas


quarta-feira, 30 de julho de 2014

Como não quero

Quantas pessoas viram esta tatuagem?
Este desenho, meio antigo, meio incolor.
Talvez pelo mesmo ângulo que eu, talvez em outros tempos.
Quantas pessoas se perderam neste olhar?
Certamente não como eu. Por minha insistência em não me perder.
A perdição, agora, não me é bem vinda.
Não preciso nem posso nem devo me perder.
Já perdi o caminho as chaves o rumo muitas vezes.
Nesta vida, em outras vidas. Nestas bocas, em outras bocas.
Tatuagens novas virão.
Em sua pele branca, em minha pele incolor.
Tatuagens são pra sempre, alguns desencontros também.
Preciso de mais encontros sem hora marcada, sem esperança.
Não quero horas pra jantares nem bares nem lares.
Quero tudo. Assim como não quero.


                                                         Rafael Freitas


quinta-feira, 29 de maio de 2014

As mulheres de Henry

para C. Bukowski

Loiras, ruivas
Morenas, mulatas
Gordas, magras
Intelectuais, culturetes
Analfabetas, incorrigíveis
Bêbadas, anônimas
Famosas, promissoras
Apenas algo em comum:
A claridade no olhar.
Olhos azuis ou cor de mel
Castanhos, verdes ou raiados
Sempre luminosos, vivos.
Talvez por medo da escuridão
Talvez pela insistência em ver além
Talvez pelos espelhos d’água
Mas sempre claros.
O único olhar escuro
Aqueles olhos pequenos
Que disseram menos verdades
Deixaram um amor eterno:
Um filho pra sempre lindo.
A busca por olhares
Olhos iguais ao céu
Olhos iguais aos seus
Parece não acabar
Nem na literatura escolhida
Nem nas ruas da vida
Nem na cachaça sorvida
Nem nos problemas com rima.
Ah! As mulheres de Henry!

                                             Rafael Freitas

quarta-feira, 21 de maio de 2014

O fim da festa

Ontem aparei a grama.
A cor do portão mudou.
A bananeira, depois de um longo tempo, novamente floresceu.
Tenho alguma fixação neste jardim.
Não é lindo, nem tão florido, mas disponho meu tempo à alguns cuidados.
Cuidados mínimos, eu sei, mas que me afastam deste mundo tão cheio de réplicas.
Não nasci para este lugar.
Deve ser por isso minha resistência ao choro nos primeiros instantes, minha sede insaciável, meu afogamento em goles.
Não devia ter ficado.
Não sei por que ainda espero o fim da festa.
Aqueles finais onde as mulheres mais bonitas já desbotaram a maquiagem, onde os galãs mais idiotas já embebedaram seus curtos vocabulários.
O fim da festa.
Eu moro muito longe e sozinho e mesmo assim incomodo.
E, apesar destas mandingas espalhadas pelos cantos, apesar destes arrepios em presenças ilustres, ainda vou seguindo.
O que mudou?
Não espero mais o fim da festa.
Se soubesse antes o que sei agora, mudaria meu destino naquele dia fatídico.
Era março, era tarde.
A festa só começou.

                                                       Rafael Freitas




quarta-feira, 30 de abril de 2014

Quinta carta, quinto ano

“Eu vi uma bruxa, com uma faca na mão, passando manteiga no pão...”
Eu não vi uma bruxa. Vi seu sorriso lindo e toda sua verdade, sua emoção, talvez sua herança, minha vida.
As histórias nos pegaram. As histórias nos uniram. As histórias nos fascinam.
A mim e a você e a quem as ouve.
Que o consumismo não consiga se impor a este coração tão belo, a estes olhos meio meus e meio orientais.
Hoje vejo o quanto o tempo passa e o quanto a vida se faz história presente.
O passado não fica mais distante quando se tem um filho, um grande amor sem explicação.
Pra mim, no mais claro chavão, parece que foi ontem.
Foi ontem que fui surpreendido com o seu nascimento repentino, seu choro esporádico, seu cheiro que só eu pude gravar para sempre.
Faz cinco anos. 30 de abril de 2009.
Fico emocionado ao pensar em tudo que passamos neste curto período tão longo, tão cheio de narrativas, tão cheio de surpresas.
Fiquei muito feliz. Fiquei muito triste.
Você sempre ali, com suas cócegas, seu abraço, seu “te amo, pai”, dito rapidinho para não atrapalhar o desenho animado.
Somos Transformers da vida real, sem revisão na internet. Não temos bula, nem manual de instruções.
Vamos nos descobrindo e, mesmo em erro, tentando respeitar nossos espaços, nossas vontades.
Não tenho muito para deixar aqui. Você é quase que toda minha herança para a humanidade, que carece de corações e mentes como a sua.
Não tenho grande fortuna, nem lembrancinhas em E.V.A., nem presentes caros, nem nada.
Mas tenho minhas histórias. Tenho as histórias que construimos juntos.
Temos muitas histórias a construir.
Somos sujeito e predicado inseparáveis. Encontro sem hiato.
Este é meu presente: deixo você escrever seu próprio poema da vida.
Serei seu maior leitor e, quando necessário, um corretor ortográfico.
Cheio de críticas sempre, mas com muito amor para dar.
Parabéns meu Pequeno Ramone.

“I believe in miracles!”

                                                     Rafael Freitas


terça-feira, 29 de abril de 2014

Maria

O mar ia me trazer conchas mais belas
Pra na praia arrebentar
O mar ia me dizer palavras doces
Pra me consolar
Três Marias, noite clara, lua linda
Pra iluminar
Sete velas pra Maria, mil pedidos
De nos abençoar

Maria!

Amar ia ser mais belo sem cobrança
Por prazer de se doar
Amar ia ser mais puro se feito criança
Se soubesse amar
Mil Marias, mundo em paz, de gente simples
Como eu quero ser
Ser criança, Maria!

Maria!

                                                    Rafael Freitas


sexta-feira, 25 de abril de 2014

Isso não passa por enquanto

Enquanto isso vou lá fora
E espero o vento dissipar
Soprar a fumaça do cigarro
E meus últimos pensamentos

Enquanto isso espero o dia
Que talvez nunca virá
Você voltando em linhas tortas
De um poema sem final

Enquanto isso ainda guardo
Os presentes, os instantes
O passado nas paredes
No corredor do coração

Enquanto isso fecho os olhos
Relembro os beijos não trocados
As bocas secas, solitárias
Sem palavras, sem sorrisos

Enquanto isso não sei quando
Vou dormir sem a saudade
Sem saber a todo instante:
Isso não passa por enquanto

                                                      Rafael Freitas

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Bananeiras de jardim

A grama é a mesma desde sua partida.
Não foi aparada, nem cuidada, nem nada.
Suas pegadas devem estar ali, escondidas sob o verde pálido, sob espaços mortos.
A bananeira cresceu. Sozinha, sem atenção.
Não cortei mais os cabelos. Só faço a barba em ocasiões.
Espero ainda um momento especial, uma surpresa, que certamente não virá.
A emoção secou. Talvez a tristeza tenha me transformado em uma pessoa melhor.
Não estou mais triste. Nem feliz.
Vou seguindo.
A grama meio alta e meio morta me incomoda, mas não tenho forças para cortá-la.
Sou como a bananeira. Cresci por estes dias, sozinho, sem atenção.
Sozinho. Estou sozinho.
Tenho mais amigos, mais tempo, mais sorrisos.
Ainda assim estou sozinho.
As teias de aranha aumentaram. O tamanho das lagartixas também.
O espaço pequeno da pequena casa é enorme.
O mundo parece agora um buraco. Gigantesco e vazio.
Estou no centro, rodeado pelo vácuo da ausência.
A grama meio alta e meio morta me incomoda, mas não vou cortá-la.
Não quero ver seus passos, descobrir minhas fraquezas, perder a respiração.
Vou continuar crescendo, como as bananeiras.
Quem sabe cortar os cabelos.
Cabelos compridos são marcas do passado. Os mesmos fios que sentiram seu afago ainda estão aqui.
Começar pelos cabelos, depois a barba, depois o resto.
Surpresas nem sempre são boas. É melhor que não aconteçam.
As horas passam.
Tudo passa.
A grama, depois de aparada vai crescer de novo, assim como os cabelos e a barba.
A vida continua.
As bananeiras crescem, mesmo sozinhas e sem atenção.


                                            Rafael Freitas


sexta-feira, 4 de abril de 2014

Nascer de Sol

Nada pode ser maior
Ou mais intenso
Que o mais brando
Porém imenso
Nascer de sol

Pode não ser o momento
Não ser a hora
Frente a tanto contratempo
Não ser agora
Em resumo: pode não ser

O sol de novo nascerá
Queimando nossas retinas
Queimando a pele
Morenas Anas e Carolinas
Que se revelem!

E desta vez eu me contento
Esta ânsia que me devora
Deixei pra trás o meu lamento
Sou brisa leve que vai lá fora
Em resumo: vou mesmo assim

                                              Rafael Freitas


segunda-feira, 10 de março de 2014

O último

Viva de caribes
De wiskeys
De sorrisos

Viva a solidão
Da independência
Da soberba

Viva de Marlboros
Filtros brancos
Vela acesa

Viva de amizades
E esqueça
A si mesma

E esqueça
Se aborreça
Entristeça

Um sorriso
Amarelo
Erga a cabeça

E sufoque
A dor que sente
Ignore

Ignore a mim
Nossa existência
E chore

No travesseiro
Às escuras
No silêncio

Ninguém verá
A fortaleza
Desmurada

Em que se torna
Se transtorna
Ao anoitecer.
                                       Rafael Freitas


quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Como somos

Nada melhor que um espelho
Em sua nitidez fria
Pra mostrar aos cromossomos

Neste desamor fraterno
Numa vida tão vazia
O quanto idiota somos

                                Rafael Freitas


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Jasmins

Os jasmins floriram.
A brancura de suas flores reflete a alma de quem as vê.
O perfume é inebriante, quase tóxico, quase afrodisíaco.
O calor continua o mesmo. As noites de suor no rosto, insônia e pernilongos.
Mas o mesmo eu não existe mais.
Pode ser que eu não tenha nunca novos caminhos, porém tenho novas passadas, novo gingado, nova respiração.
E, agora, tenho jasmins no caminho.
Jasmins e Damas da Noite.
Quanto perfume para pouco volume de folhas e galhos.
O que pode ser insignificante aos olhos por vezes nocauteia outros sentidos.
Tenho memória olfativa.
Cheiros me lembram pessoas, lugares, momentos.
Seu cheiro insiste em ficar.
Meu cheiro quase não me pertence. Meus pensamentos também não.
Devaneios insones ainda me dominam, mas já me controlo e cantarolo.
Sou filho da mata, caçador como meu pai. Sou filho das quedas d’água, sentimento envolto em sentimento, amor sem controle e quase sempre sem foco.
Não sei retribuir o que me é dado, fui criado assim. Não sei dividir.
Sei compreender. Perdoar. Estou sempre em aprendizado.
Começo agora.
Perfumei a alma para que os jasmins pudessem sentir meu cheiro.
Perfumei a casa para as Damas da Noite entrarem.
Espero que lembrem de mim quando por ventura eu não estiver mais aqui e meu cheiro perambular pelas ruas.
Eu ainda me lembro do seu cheiro, sempre vou lembrar.
Tenho memória. Tenho saudades. Tenho coração.

                                                                                    Rafael Freitas


sábado, 1 de fevereiro de 2014

O som da solidão

Solidão é noite mal dormida
É beco sem saída
É acordar em vão

Solidão é estar acompanhado
E não ter ninguém ao lado
Em meio à multidão

Solidão é ter prato sobre a mesa
E a plena certeza
De que não há jantar

Solidão é manter-se sempre alerta
E deixar a porta aberta
Pra quem nunca vai chegar

Solidão é em nada ver beleza
É deixar a vela acesa
Pra bruxa não voltar

Solidão é a espera de um sorriso
Caminhar entre Narcisos
E no lago se afogar

Estar sozinho é praia sem o mar
É um caminho
Que não se sabe onde vai dar

                                                    Rafael Freitas


sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Queria ser Manoel

Todos juntos voarão
Eu vou sozinho

Quem sabe juntos vagarão
Eu, vagarzinho

                                       Rafael Freitas



terça-feira, 15 de outubro de 2013

Não muito tempo

Há tempos não escrevo.
Não tenho tempo, vontade, leitores.
Não lhe dediquei um poema de aniversário.
Nenhuma crônica de fuga.
Nenhuma bula ou manual sobre como conviver comigo.
Há tempos.
Não muito tempo.
Talvez dias, semanas, meses.
Há tempos não a vejo.
Não me lembro mais do seu rosto.
Com esforço, só sorrisos.
Não escrevo desde que foi embora.
Mas, depois deste inverno, resolvi.
Minhas palavras estão tão vazias quanto meu coração.
Frases incompletas como os dias que seguem
Com sol a pino, fogo adornado por fogo
No céu azul do interior.
O que faz um poeta necessário?
A vida não poetiza o mundo.
Mas as palavras são necessárias.
Não para abstrações neste mundo escancarado.
“- Uma água, por favor.”
Deve ser pra isso que servem as palavras.


                                                           Rafael Freitas


quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Acordei Poeta

o fel e a cidade
a felicidade
escondida
nasce quadrado
o sol
por entre
a grade da vida

Rafael Freitas


segunda-feira, 22 de julho de 2013

Vem pro sol

Deixa essa sombra
Vem pro sol comigo
Vem suar, vem cansar
Sem olhar pra cima

Pra cima os olhos doem
Pra cima sobra luz
De cima vem a chama
O prisma, arco-íris

O sol é vida e morte
Seca e prenúncio de amanhecer
É luz incessante, forte
Que a sombra revela na escuridão

Vem pro sol comigo
Sua sombra é zona de conforto
Sua sombra, um descansar eterno
Sua sombra é perder-se sempre

Perder-se de quem está no sol
Perder-se quem é tom maior
Perder-se de quem não é bemol
É perder-se para sempre de mim.

                                                    Rafael Freitas


segunda-feira, 15 de julho de 2013

O tempo das flores

Há tempos não vejo flores na paisagem.
Pode ser que estejam ali, mas não as vejo.
Ontem até olhei a lua. Fina e torta. Bumerangue de sonhos.
Fumei mais um cigarro.
A bebida e a fumaça estão me destruindo.
Não vejo as flores.
Certamente se escondem em meio a todo esse capim.
A ferrugem entra em casa pelo portão. Começa nele e para em meu peito.
Meus instrumentos silenciaram suas cordas.
Voz rouca e pouco ar.
Os ipês nunca deram flores. Não as vi.
Queria sentir seu cheiro. Não sinto.
Ver suas sobrancelhas grossas e seu sorriso de manhã de sol.
Não vejo flores, não sinto cheiros, não sei esperar a estação correta.
Você foi embora com a promessa de voltar.
Eu fiquei em pé à porta. Esperei sob a luz fraca do poste de periferia.
Preferia não saber do bem que sua voz me faz.
Preferia não saber.
O conhecer é caminho sem volta.
Não sei esperar a primavera. As flores sabem sozinhas a hora de desabrochar.
Por me preocupar tanto com as chuvas de verão não vejo a chegada das flores.
Sei que elas existem. Há tempos não as vejo.
Você realmente se foi.
Espero não ver a beleza das flores somente quando todas juntas formarem uma coroa.
Não quero mais lágrimas.
Não quero mais nada.
Quero a chave da primavera pra poder te ver florir em casa, perfumando minhas toalhas velhas e meus lençóis manchados.

Clareia. 

                                                    Rafael Freitas


quinta-feira, 27 de junho de 2013

Amor sem comparação

Eu quero um amor doce
Do tipo maçã do amor
Que mesmo não sendo fácil
A gente teima em roer

Quero também aquele amor
Cheio de efervescência
Tipo aspirina em água
Numa ressaca de manhã

E aquele amor salgado
Saboroso igual torresmo
Que aguça a nossa sede
E adoça a boca a cerveja

Todo amor pra mim é válido
Mesmo sendo aquele amargo
Misturado com laranja
Vermelho, gelo e Campari


Sem comparação!

                                                    Rafael Freitas

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Quarta carta

             Mochilinha nas costas, uniforme sem manga e a perna rabiscada de caneta.
            Pára na porta, me dá um abraço apertado e segue sozinho seu caminho pelo corredor da escola.
            Eu fico ali parado, coração aos pulos, cheio de orgulho e de vontade de assistir sua entrada na sala.
            Você já vai sozinho onde quer. Está cada vez mais independente, cheio de vida e curiosidade.
            Frases bem elaboradas, impressionantes pensamentos, brinquedos meio exóticos. O punk de cabelo verde é um limpador de vaso sanitário e a saboneteira de plástico um barco, uma nave.
            Como você me faz feliz!
            Eu ando meio cansado. Dor nas costas e nas pernas, cabeça cheia de indecisões, coração aflito nem sei por que.
            Fico preocupado em pensar que posso estar ausente de sua vida. Fico angustiado com a mínima possibilidade de não ganhar um sorriso seu.
            Sinto saudades sempre. Toda hora. Cada segundo.
            A liberdade de pensar e agir é sua. Você nasceu assim, livre. Tem o espírito dos aventureiros e alma de poeta.
            Descobri como o tempo passa ao enfeitar sua silhueta de papel. Você cresceu. Está crescendo.
            O futuro, às vezes, me dá medo. Não quero ver você indo embora, sozinho, mochila nas costas.
            Não quero assistir sua vida sem fazer parte da trama.
            Não quero mais chorar por hoje.
            A vida nos prega peças. O mundo nos ensina a valorizar quem amamos a duras penas.
            Não consigo definir o que sinto quando ouço sua voz, quando sinto seu cheiro, quando me chama de papai. É indefinível, indescritível, indecifrável. Ainda não inventaram títulos para todo esse sentimento que explode em meu coração, minha alma.
            Espero estar sempre pronto. Se não estiver, improviso.
            O mundo não pára. Despedidas e reencontros sempre haverão.
            Você sempre vai morar em meus pensamentos.
            Sigamos de mãos dadas, meu filho, minha paz.
            Hey! Ho! Let’s go!

                                                                                        Rafael Freitas


quinta-feira, 16 de maio de 2013

O que acaba no domingo


A solidão fria dos trens lotados
O pensamento amargo
Nas gulags municipais
O susto cego das noites frias
E a certeza de ser feliz
Três noites por semana
Doze dias por mês, poucas horas
Para uma vida inteira
Que acaba no domingo.

Não quero mais ser este
Este só, somente
Quero soma, adição
Nem calor, nem frio
Olhos vidrados na escuridão
Memórias vagas
Que não lembram rostos
Só sentem cheiros
Lembram sorrisos.

Não quero mais ser este
Este só, semente
Vida nova brota e flore
Por mais que os olhos chorem
São nascentes para os sonhos
Quer acabam às despedidas.

                                                Rafael Freitas

terça-feira, 9 de abril de 2013

Nós nos afetamos

Temos a paz entre nós dois
O mundo lá fora não nos quer
O mundo lá fora não se quer
O mundo não se merece
Nós merecemos um ao outro.

Temos a prece em nossas mãos
Os sacerdotes não querem tocá-las
As novenas não querem citá-las
Os santos não se conhecem
Como nós nos conhecemos.

Temos o fogo em nossas almas
Somos invejados por quem não se ama
Por manter no peito a mais bela chama
O fogo fátuo não nos afeta
Somente nós nos afetamos.

                                                           Rafael Freitas

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Nós

Entre velas e defumações
Entre pontos e canções
Entre pedidos e orações
Entre eu e as multidões
Fechei os olhos e vi você

Por entre cravos e camélias
Em meio a lírios e bromélias
Cheirando rosas amarelas
Pisando todas as flores belas
Sem esperar, você em mim

Não foi escolha, nem devoção
Não foi esquema, programação
Não foi um dia vivido em vão
Foi algo além da compreensão
Você em mim, eu em você

Agora conto cada segundo
Você aqui, eu no seu mundo
Sozinho sou um moribundo
Que sempre soube bem lá no fundo
Que era mesmo pra ser assim

                                             Rafael Freitas

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Nada além

Quem será por mim
A não ser eu?
Quem será que se esconde
A não ser eu em mim mesmo?
Por trás dessas paredes
Verdes de lodo, amargas de fel
Quem habita no escuro?
Quem desenha esses sonhos?
Quem destrói essas nuvens?
Faz nevar no dia claro de primavera?
Quem habita esse mundo estranho,
Essa rua morta, essa curva seca,
Esse mato alto, esse céu revolto,
Esse bar lotado, capela vazia,
Cabeça de porco, cheirando lavagem?
Quem será essa sombra que persegue
Que corre atrás da luz
E desencontra o dia e não enxerga a lua?
Que não enxerga
Não vê
Nada além do próprio umbigo.

                                             Rafael Freitas

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Habitual

Não sei onde me encaixo
Na orgia desse carnaval
Na arrogância chique de um sarau
Na noite cinza em pleno pré-natal

Não sei como me movo
No dia-a-dia desse lamaçal
No álcool seco e forte do canavial
No tropeçar noturno, bêbado habitual

Não há como atravessar esse mar de ilusões
Não há como atravessar esse mar
Não há como atravessar
Não há como
Não há

                                                                 Rafael Freitas


segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Mosaico

Transformo meu coração em cacos
O prazer também habita a solidão
E as lágrimas ao permitirem-se existir
Permitem o despertar de novos sonhos
O brotar de novas flores na imensidão do quarto.

Transformo minha alma em pano roto
Despir-se é um ato de coragem
E a nudez possibilita ensaios, poses
Sensualidade à flor da pele, arrepios
A volta da pureza em um corpo vão.

Transformo minha paixão em alegoria
Enfeites nos permitem iluminar os olhos
Ver um mundo novo além da janela aberta
Colorir a avenida com vermelho sangue
E sangrar aos risos e chorar em festa.

Transformo meu coração em cacos
Pedaços de espelho que refletem a mim mesmo
Pedaços de vida ainda não vivida
Pedaços do que poderia ter sido e não foi
Um mosaico que teima em enfeitar meu peito.
 
                                                                       Rafael Freitas