sábado, 15 de maio de 2010

A fala

Desde a hora em que levantou ela não parou de falar.
A caixa d’água está com vazamento, o líquido se infiltrou nas paredes e escorreu até o chão. As poças que se formaram são sujas e toda a casa está com um ar fétido e imundo.

É com transtorno que ela observa a situação e reclama insistentemente. Todo o trabalho de limpeza do dia anterior foi literalmente por água abaixo, e a idéia de tudo ser refeito a perturba muito. Seus quase cinquenta anos não permitem mais tanto esforço e o que lhe resta são as reclamações.

Nunca teve a casa dos sonhos, nem o marido dos sonhos ou os filhos doutores.

Vive cercada por uma família de abutres, que inveja até o mínimo que tem em sua vida, e faz o máximo esforço para acreditar que todos aqueles idiotas a amam.

Para exorcizar-se só lhe resta maldizer a vida e reclamar.

Como se alguém fosse obrigado a levar a culpa por toda sua vida de metas não alcançadas.

Suas dores no corpo surgem da insatisfação e qualquer barulho é a melhor fuga do pensamento.

Não quer pensar.

É muito mais confortável ocupar o vazio de toda uma existência com reformas e faxinas domésticas do que com a importância do ser.

Ser não é somente verbo.

Ser é a essência.

Qualquer um pode saber o que é ter mesmo que não tenha.

Mas saber o que é ser só é possível desde que se seja.

Justamente esta noite eu quase não dormi vagando em pensamentos e reflexões acerca do que é ser.

Desde que o sol nasceu ela não parou de falar.

Às vezes parece até que fala sozinha, com os móveis da casa ou com as malditas poças d’água.

Veio me contar os problemas dos vizinhos, dos parentes, das paredes, do telhado e da caixa d’água.

Suas falas são monólogos que parecem se defender das frases alheias.

Hoje descobri que posso lidar muito bem com todo esse inconveniente: minha cabeça fala tanto quanto sua boca.
´

Rafael Freitas



2 comentários:

  1. Aqui vc soube como ninguém descrever o dia a dia de uma mulher por volta dos cinquenta anos brigando com seus sonhos q ficaram no passado e q tentam a todo instante reviver. Mas hj a realidade é outra: amor transformado em convivência ou conveniência, filhos mesmo adultos q precisam ser cuidados (na nossa mente, apenas), netos, casa sempre faltando algo q planejamos, por vzs algo q defazou ou um provisório q ficou permanente. Tudo irrita.Nossos assuntos.... ora, não são os mesmos de nossos filhos, nossa vida virou uma bolha de nada de onde não conseguimos escapar, isso nos sufoca e as explosões são incontroláveis.
    Parabéns Rafa pela sensibilidade em nos retratar tão bem, mesmo q na hora tenha sido um desabafo seu.

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  2. A Fala foi o meu primeiro encantamento com suas palavras... e hoje, faz três anos...

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