quinta-feira, 31 de maio de 2012

Sonho Bom


De tanto sonhar acordado, seus olhos ressecaram.
Ardiam e apresentavam a vermelhidão tóxica das noites mal dormidas e dos amores acabados.
Sentia dor mas não se movia.
Não sabia se o sonho tinha terminado ou se os finais felizes sempre carregam consigo a dor.
Já não enxergava o que tanto olhou, não distinguia cores e tons e luz.
Somente a seca.
Como o leito dos rios sem chuva que racham com o sol de dezembro.
Como a pele exposta ao frio das manhãs de um árido outono.
Nenhuma lágrima.
Não conseguia chorar em meio ao sonho sem sono diário.
Já não lembrava o que o fez sonhar, mas sabia que era bom.
Melhor que o despertar vazio das manhãs de segunda-feira.
Melhor que o descansar das madrugadas alucinógenas dos feriados.
Sentia o cheiro das flores que não sabia se existiam de fato.
Depois de um bom tempo a dor já não incomodava.
Como a toalha molhada sobre a cama após anos de casamento.
Como o mastigar à mostra do sobrinho obrigatório.
Conseguiu com muito esforço movimentar os dedos das mãos e dos pés.
Levantou-se vagarosamente e sentiu a brisa em seus cabelos.
O sonho tinha sido realidade por alguns segundos.
Agora tudo estava acabado.
As lágrimas vieram com força, como se rompessem o pâncreas, o fígado, os pulmões, até estourarem na face em prantos convulsivos.
Realmente era o fim.
A seca acabou.

                                                                           Rafael Freitas

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