terça-feira, 11 de março de 2025

Sobre café com açúcar

Fico olhando para o nada.

Apenas nada.

Todo o nada.

O nada que existe e teima em resistir.

Aquele hiato no tempo que nos faz perder a hora, que nos faz perder o senso, sentir o silêncio.

O silêncio que até parece o nada, mas é tudo o que nos resta.

“Bom dia!” – corredor, gritos, caminhos infinitos que não levam a lugar algum.

“Bom dia!” – resposta mecânica, sem ensaio nem expressão.

E assim se vai a vida.

Nesses vindouros quarenta anos nessa existência, nesse lugar, com essas pessoas.

Quarenta anos passados (vividos?), vindos de tantos outros passados, tempos paralelos.

Sinto a mesma solidão dos dez, dos vinte, dos trinta anos.

O que a difere de outrora, enquanto escrevo, é a sua necessidade.

Sinto a necessidade, quase que vital, quase que urgente, da solidão.

A solidão silenciosa que a princípio incomoda, assusta a própria sombra, desenterra o passado.

Essa solidão, melancólica e rude, em pouco tempo se transforma em festa, companhia de carnaval.

Uma vida solitária. A experiência empírica de ser um só no mundo e, ao mesmo tempo, muitos.

Já não fumo há alguns anos. Bebo quase nada. Não dispenso café com açúcar.

Liberto sorrisos bobos, quase infantis, quando me permito ver a vida brotando por entre a burocracia de adultos insones, cafeinados, comendo suas marmitas proteicas.

Os beija-flores voltaram a fazer seus ninhos. As crianças voltaram a jogar cartas e pular cordas.

Posso contemplar todo esse movimento quando sinto a presença enorme de mim mesmo.

Só, somente só. Ensimesmado de mim.

Quarenta minutos do segundo tempo. Agradeço a torcida.

Observo a grama verde.

Aqui e agora.

Só se vive uma vez.

 

Rafael Freitas


Um comentário: