Fico olhando para o nada.
Apenas nada.
Todo o nada.
O nada que existe e teima em resistir.
Aquele hiato no tempo que nos faz perder a hora, que nos faz
perder o senso, sentir o silêncio.
O silêncio que até parece o nada, mas é tudo o que nos
resta.
“Bom dia!” – corredor, gritos, caminhos infinitos que não
levam a lugar algum.
“Bom dia!” – resposta mecânica, sem ensaio nem expressão.
E assim se vai a vida.
Nesses vindouros quarenta anos nessa existência, nesse
lugar, com essas pessoas.
Quarenta anos passados (vividos?), vindos de tantos outros
passados, tempos paralelos.
Sinto a mesma solidão dos dez, dos vinte, dos trinta anos.
O que a difere de outrora, enquanto escrevo, é a sua
necessidade.
Sinto a necessidade, quase que vital, quase que urgente, da
solidão.
A solidão silenciosa que a princípio incomoda, assusta a
própria sombra, desenterra o passado.
Essa solidão, melancólica e rude, em pouco tempo se
transforma em festa, companhia de carnaval.
Uma vida solitária. A experiência empírica de ser um só no
mundo e, ao mesmo tempo, muitos.
Já não fumo há alguns anos. Bebo quase nada. Não dispenso
café com açúcar.
Liberto sorrisos bobos, quase infantis, quando me permito
ver a vida brotando por entre a burocracia de adultos insones, cafeinados,
comendo suas marmitas proteicas.
Os beija-flores voltaram a fazer seus ninhos. As crianças
voltaram a jogar cartas e pular cordas.
Posso contemplar todo esse movimento quando sinto a presença
enorme de mim mesmo.
Só, somente só. Ensimesmado de mim.
Quarenta minutos do segundo tempo. Agradeço a torcida.
Observo a grama verde.
Aqui e agora.
Só se vive uma vez.
Rafael Freitas